Milhões de mulheres no Brasil convivem com próteses de silicone, seja por cirurgia estética, seja por reconstrução após tratamento oncológico, e uma dúvida recorrente entre elas é se a mamografia de rotina continua sendo segura e eficaz nessa condição. O médico radiologista Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues explica que a resposta é sim, desde que o exame seja realizado com uma técnica específica, criada há mais de três décadas e ainda pouco conhecida do público em geral: a manobra de Eklund.
Próteses de silicone são radiopacas, ou seja, aparecem como uma área densa e opaca na imagem de raios X, o que pode encobrir justamente o tecido mamário que precisa ser examinado com atenção. Sem um ajuste técnico adequado, estudos mostram que o rastreamento mamográfico pode deixar de identificar até 55% das lesões em mulheres assintomáticas com prótese, contra cerca de 33% em mulheres sem esse tipo de implante. Entender como essa técnica funciona e por que ela nem sempre é aplicada corretamente ajuda a explicar uma das particularidades menos discutidas do diagnóstico por imagem em saúde da mulher.
O que é, exatamente, a manobra de Eklund e por que ela é necessária?
Desenvolvida em 1988 pelo radiologista sueco Gunnar Eklund e colaboradores, a técnica consiste em tracionar manualmente o tecido mamário para frente, empurrando a prótese contra a parede torácica, de modo que a compressão do exame incida principalmente sobre o tecido glandular deslocado, e não sobre o próprio implante. Esse ajuste permite obter incidências adicionais, além das duas projeções básicas tradicionais, ampliando a quantidade de tecido mamário efetivamente visualizado e reduzindo a área encoberta pela prótese.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, sem essa manobra específica, uma parcela relevante do tecido mamário simplesmente não aparece de forma adequada na imagem, o que compromete a capacidade do exame de identificar microcalcificações ou pequenas distorções que poderiam indicar um tumor em estágio inicial. Para ele, dominar essa técnica deveria ser requisito básico de qualquer serviço de mamografia que atenda mulheres com implantes, e não um diferencial de poucos centros especializados.
Por que alguns serviços deixam de aplicar essa técnica corretamente?
Estudos brasileiros que revisaram protocolos de diferentes serviços de imagem constataram que parte significativa das clínicas não realiza a manobra de deslocamento em ambas as incidências recomendadas, seja para reduzir o tempo de exame, seja para diminuir custos operacionais associados às radiografias adicionais necessárias. Quando a prótese é posicionada atrás do músculo peitoral, a manobra costuma ser mais fácil de executar; já em próteses posicionadas à frente do músculo, ou em casos de contratura capsular, quando o implante fica fixo e endurecido pela cápsula fibrosa ao redor, a aplicação da técnica se torna mais desafiadora.

Na avaliação do Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, essa variação de qualidade entre serviços é um problema silencioso, já que a paciente dificilmente tem como saber, apenas pelo resultado do laudo, se a técnica adequada foi de fato empregada durante seu exame. Ele recomenda que toda mulher com prótese informe explicitamente essa condição ao agendar o exame e sinta-se à vontade para perguntar diretamente se o serviço aplica a manobra de deslocamento em suas incidências.
Existe algum risco real de a prótese se romper durante o exame?
Um dos medos mais comuns entre pacientes é o de que a compressão da mamografia possa romper o implante de silicone, mas a evidência disponível não sustenta essa preocupação quando o exame é realizado por profissionais capacitados e com equipamento ajustado adequadamente. Serviços que atendem regularmente mulheres com prótese costumam reduzir a pressão de compressão nesses casos, equilibrando a necessidade de boa qualidade de imagem com a segurança do implante.
Para o ex-secretário de Saúde, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a principal recomendação prática, além da técnica em si, é que a mulher aguarde ao menos seis meses após a cirurgia de implante antes de realizar a mamografia, período em que o risco de comprometer pontos internos ainda em cicatrização é maior. Fora dessa janela inicial, o exame é considerado seguro e continua sendo indicado com a mesma periodicidade recomendada para mulheres sem prótese.
O que muda, na prática, para quem tem prótese e precisa de rastreamento contínuo?
Mulheres com implante de silicone devem manter a mesma frequência de rastreamento recomendada para seu perfil de risco individual, sem qualquer redução de vigilância por conta da presença da prótese, já que está bem estabelecido que o silicone em si não aumenta o risco de desenvolver câncer de mama. O que muda é a exigência técnica do exame, que passa a incluir incidências adicionais e maior atenção do radiologista na hora de interpretar imagens que naturalmente têm parte do campo visual ocupada pelo implante.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues reforça que a acurácia da mamografia em mulheres com prótese, mesmo com a técnica correta, tende a ser discretamente inferior à observada em mulheres sem implante, mas que essa diferença não parece influenciar o prognóstico dos tumores encontrados, segundo estudos que acompanharam essas pacientes ao longo do tempo. Para ele, a informação mais importante a ser transmitida é que ter prótese não deveria, em hipótese alguma, ser motivo para adiar ou evitar o exame.
A manobra de Eklund é um exemplo de como um pequeno ajuste técnico, pouco visível para quem está do lado de fora do consultório, pode representar uma diferença relevante na qualidade do diagnóstico. Trata-se de conhecimento consolidado há décadas, mas que ainda depende da atenção de cada serviço de radiologia para ser aplicado de forma consistente.
Para qualquer mulher com prótese que esteja se preparando para uma mamografia, a recomendação prática é simples: informar a condição ao agendar o exame, perguntar sobre a técnica utilizada e manter a mesma regularidade de rastreamento já indicada para o seu perfil de risco, sem deixar que o medo infundado de complicações adie um cuidado essencial.