Nos últimos anos, a agenda ambiental chegou com força ao setor de centros comerciais, transformando a gestão de resíduos de uma obrigação regulatória em um critério relevante de competitividade e posicionamento institucional. Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, aponta que os shopping centers figuram entre os maiores geradores de resíduos sólidos no ambiente urbano, combinando alto fluxo de pessoas, grande diversidade de operações comerciais e complexidade logística que torna a gestão ambiental um desafio de primeira ordem para os administradores. Afinal, esses centros de comércio podem gerar dezenas de toneladas de resíduos por dia, provenientes de lojas, praças de alimentação, serviços especializados e áreas comuns de uso intensivo.
Aqui, você entenderá melhor como esse desafio está sendo enfrentado e o que ainda precisa avançar para que o setor alcance padrões mais consistentes de desempenho ambiental. Acompanhe!
A heterogeneidade dos resíduos gerados e seus desafios operacionais
Os resíduos gerados em shopping centers são extremamente variados na composição e nos volumes produzidos por cada tipo de operação. As praças de alimentação concentram grandes volumes de resíduos orgânicos, embalagens descartáveis, óleos de fritura e sobras de alimentos preparados que precisam de destinação adequada e ágil. Já as lojas de moda e varejo geram embalagens de papelão, plásticos de proteção e materiais de vitrine com alto volume de descarte sazonal. Os serviços de saúde e estética, por sua vez, presentes em muitos empreendimentos, produzem resíduos que demandam segregação rigorosa e tratamento específico desde a origem, com responsabilidades legais bem definidas.
Segundo Marcello José Abbud, a complexidade da gestão é amplificada pelo fato de que o shopping center é um condomínio de operações independentes, cada uma com suas próprias práticas e volumes distintos de geração de resíduos. Em vista disso, harmonizar os procedimentos de segregação na origem entre dezenas ou centenas de lojistas exige treinamento contínuo, comunicação clara e acessível e sistemas de monitoramento que identifiquem pontos de não conformidade e permitam correções rápidas antes que os problemas se tornem recorrentes e de difícil reversão.

Boas práticas e modelos de gestão integrada que já funcionam
Os empreendimentos mais avançados na gestão de resíduos adotam um modelo integrado que começa na segregação rigorosa na origem por parte de cada operação presente no shopping e termina na destinação final ambientalmente adequada de cada fração coletada. Centrais de resíduos bem dimensionadas, com áreas separadas e identificadas para orgânicos, recicláveis secos, rejeitos, óleo de cozinha e resíduos especiais, são a espinha dorsal de qualquer sistema eficiente nesse contexto. A compactação de resíduos secos e o resfriamento adequado de orgânicos reduzem o volume armazenado e permitem ampliar os intervalos entre coletas externas sem comprometer as condições sanitárias.
Conforme detalha Marcello José Abbud, os programas de compostagem dos resíduos orgânicos gerados nas praças de alimentação representam um dos avanços mais significativos e de maior impacto possível na gestão ambiental de shopping centers. Isso porque praças de grande porte podem gerar entre duas e cinco toneladas de resíduos orgânicos por dia, volume suficiente para viabilizar operações de compostagem acelerada ou biodigestão no próprio empreendimento, gerando composto orgânico ou biogás com aproveitamento local direto.
ESG, certificações e a pressão dos investidores institucionais
A agenda ESG chegou com força ao setor de shopping centers, impulsionada pela presença crescente de fundos de investimento imobiliário como principais acionistas dos grandes empreendimentos. Certificações como LEED, AQUA e ISO 14001 incluem critérios específicos de gestão de resíduos entre seus requisitos, criando incentivos para que os empreendimentos invistam em sistemas mais eficientes e transparentes. Relatórios de sustentabilidade com dados de volumes gerados, taxas de reciclagem e destinação por fração são cada vez mais exigidos por investidores institucionais e por grandes marcas que escolhem seus pontos de venda também com base em desempenho ambiental.
Na concepção de Marcello José Abbud, a combinação entre pressão de investidores, exigências regulatórias crescentes e demanda dos consumidores por empreendimentos ambientalmente responsáveis está criando um ambiente progressivamente favorável para avanços consistentes na gestão de resíduos do setor. O shopping center do futuro será avaliado não apenas pela qualidade do mix de lojas e pelo fluxo de visitantes, mas também pelo seu desempenho ambiental mensurável e pela forma como integra a gestão de resíduos à sua estratégia de longo prazo.