FPA diz que programa perde R$ 29,6 bilhões quando descontados fundos que não fazem parte do crédito rural tradicional.
O anúncio do Plano Safra 2026/2027, feito pelo governo federal no dia 30 de junho, provocou reação imediata da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), maior bancada do Congresso Nacional. Em nota oficial divulgada no mesmo dia, a entidade, presidida pelo deputado Pedro Lupion, afirmou que os R$ 525,1 bilhões anunciados para a agricultura empresarial escondem uma queda efetiva de recursos em relação ao ciclo anterior.
A disputa em torno dos números levanta uma pergunta que interessa diretamente a quem vive do campo: afinal, o crédito disponível para a próxima safra é maior ou menor do que no ano passado? Para responder isso, é preciso entender a diferença entre o valor total anunciado pelo governo e a metodologia de cálculo contestada pela bancada ruralista, que aponta o uso de fundos que, segundo a entidade, nunca fizeram parte do escopo tradicional do crédito rural.
O que a FPA contesta no Plano Safra 2026/2027
Segundo a análise técnica divulgada pela FPA, o crédito de custeio e comercialização, linha que financia diretamente o plantio, a compra de insumos e a manutenção da atividade produtiva, recuou de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões, queda de 7,2%. Para a bancada, essa é a modalidade mais sensível do programa, já que sustenta o dia a dia da produção agrícola, e sua redução tende a pesar sobre produtores que já enfrentam custos elevados de insumos e juros altos.
Já a fatia destinada a investimentos cresceu 38%, passando de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões. A FPA, no entanto, argumenta que esse aumento foi inflado pela inclusão de R$ 38,5 bilhões provenientes de fundos como o Move Agricultura e o Ecoinvest Brasil, recursos que, segundo a entidade, não integram tradicionalmente o crédito rural. Descontado esse valor, a bancada calcula uma redução total de R$ 29,6 bilhões, equivalente a 5,73% em relação ao ciclo 2025/2026. A nota também cita cortes específicos considerados estratégicos, como a queda de 54% no Moderfrota, linha voltada à renovação de máquinas agrícolas, e de 28% no Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), justamente em um momento de déficit reconhecido de silos no país.
Ausência de Lula no lançamento gera desgaste político
Além da disputa sobre os números, a FPA classificou como preocupante a ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia de lançamento do Plano Safra voltado à agricultura empresarial. O evento, realizado no Palácio do Planalto, foi conduzido pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pelo ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, enquanto Lula participava da Cúpula do Mercosul, no Paraguai. O presidente retornou ao Brasil no mesmo dia e compareceu apenas ao anúncio do plano destinado à agricultura familiar.
Para a bancada, esse gesto reforça uma tentativa de separar o agronegócio em categorias distintas, como se pequenos, médios e grandes produtores não fizessem parte de uma mesma cadeia produtiva. Essa é a terceira safra consecutiva em que nenhum dirigente da FPA comparece ao lançamento do programa voltado à agricultura empresarial, o que evidencia um distanciamento que já se arrasta desde o início do atual governo. O Ministério da Fazenda, por sua vez, defendeu o desenho do programa, destacando que houve redução nas taxas de juros em praticamente todas as linhas de crédito para o agronegócio empresarial, mesmo em um cenário de política monetária ainda restritiva.
Próximos passos no Congresso Nacional
A FPA afirmou que vai continuar atuando no Congresso para avançar com duas pautas consideradas prioritárias pelo setor. A primeira é o Projeto de Lei 5.122/2023, que trata da renegociação das dívidas rurais e já foi aprovado pelo Senado, aguardando votação no plenário da Câmara dos Deputados. A segunda é o Projeto de Lei 2.951/2024, que propõe uma reformulação do seguro rural, tema apontado por diversas entidades do setor, como a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), como um dos pontos mais frágeis da política agrícola atual.
O episódio expõe uma tensão que não é nova entre o Executivo e a bancada ruralista, mas que ganha contornos mais evidentes em ano de discussão orçamentária e articulação política para 2027. Enquanto o governo mantém a defesa de que o Plano Safra representa avanço para o setor, a FPA seguirá pressionando por mudanças no desenho do crédito rural, especialmente nos pontos ligados ao endividamento dos produtores e à ausência de uma política agrícola de longo prazo, menos sujeita a variações de cada ciclo político.
Fontes consultadas:
AgFeed: https://agfeed.com.br/economia/como-o-produtor-endividado-vai-acessar-o-plano-safra-lupion-questiona-anuncio-sem-solucao-para-dividas/
Congresso em Foco: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/120107/fpa-critica-plano-safra-2026-2027-e-cobra-mais-credito-para-produtores
Terra: https://www.terra.com.br/amp/noticias/brasil/politica/frente-parlamentar-do-agro-critica-ausencia-de-lula-em-lancamento-do-plano-safra-preocupante,0600d71f469391fb58e5ec2d4fc5675b4wrctb6d.html