Feira em Ribeirão Preto reuniu tratores autônomos, robôs e sistemas de pulverização inteligente, com recorde de negócios previsto para 2026.
A 31ª edição da Agrishow, realizada em Ribeirão Preto (SP) até o dia 1º de maio, confirmou que a inteligência artificial deixou de ser uma novidade distante da realidade do produtor rural brasileiro. Um dos destaques da feira foi a apresentação de sistemas de pulverização que usam IA para identificar pragas em tempo real, permitindo aplicar defensivos apenas onde realmente há necessidade, com economia média de 62% no uso desses produtos, segundo Matias Schelp, vice-presidente de Agricultura Inteligente da Bosch.
Para o produtor que ainda tem dúvidas sobre o custo e o retorno dessas tecnologias, o dado da Bosch ajuda a colocar a discussão em termos práticos: menos defensivos aplicados significa menos gasto com insumos e menor impacto ambiental na mesma operação. A feira reuniu mais de 800 expositores e reforçou uma tendência que já vinha se consolidando nos últimos anos, a de transformar o campo brasileiro em um ambiente cada vez mais orientado por dados, sensores e automação.
Tratores autônomos e robôs ganham espaço nos estandes
Entre as novidades apresentadas, chamaram atenção tratores capazes de responder a comandos de voz por meio de inteligência artificial, além de robôs colaborativos integrados a sistemas de visão computacional, usados para carregar e descarregar materiais de forma autônoma dentro de silos e armazéns. Também foram exibidas plantadeiras inteligentes com múltiplas linhas conectadas e sistemas integrados de dados, que permitem uma distribuição de sementes mais precisa durante o plantio.
Esses lançamentos indicam que a automação no campo está deixando de se limitar a tarefas isoladas, como monitoramento por drone, e passando a cobrir etapas inteiras da produção, do plantio à armazenagem. Segundo dados apresentados durante o evento, o agronegócio brasileiro emprega 28,6 milhões de pessoas e respondeu por 29,4% do PIB nacional em 2025, números que ajudam a explicar por que fornecedores de tecnologia têm concentrado investimentos pesados no setor. A expectativa da organização da Agrishow era de que o volume de negócios fechado durante a feira superasse o recorde de R$ 14,6 bilhões registrado em 2025, com projeções entre R$ 15,6 bilhões e R$ 15,8 bilhões para a edição de 2026.
Por que o produtor está mais cauteloso, mesmo com tanta novidade
Apesar do entusiasmo em torno das novas tecnologias, relatos de quem participou da feira apontam para um produtor mais seletivo na hora de investir. A combinação de juros altos, aumento nos custos de produção e instabilidade em preços internacionais de commodities tem levado o setor a priorizar soluções ligadas à eficiência, ao consumo de combustível, à durabilidade dos equipamentos e à conectividade, em vez de simplesmente ampliar a capacidade operacional das propriedades.
Esse comportamento mais criterioso também aparece na forma como a inteligência artificial vem sendo aplicada fora do campo físico, na gestão documental e regulatória do agronegócio. O Ministério da Agricultura já trabalha em uma Plataforma de Serviços Integrados da Defesa Agropecuária, que deve usar inteligência artificial e blockchain para permitir rastreabilidade em tempo real, agilizar auditorias e reduzir a burocracia por meio da digitalização de processos ligados à produção e à exportação. A iniciativa mostra que a tecnologia no agro não se resume mais a máquinas e sensores, mas começa a ocupar um papel central também na organização de dados, na conformidade regulatória e na integração com sistemas usados por bancos, cooperativas e órgãos de fiscalização.
Do trator que entende comando de voz ao sistema que decide, sozinho, onde aplicar um defensivo, a Agrishow 2026 mostrou um campo brasileiro que trata tecnologia cada vez menos como diferencial e mais como parte da rotina produtiva. Para o produtor, o desafio passa a ser outro: identificar, entre tantas soluções apresentadas, quais realmente se encaixam no tamanho da propriedade, no tipo de cultura e no orçamento disponível para a safra 2026/2027, em um momento em que crédito mais caro exige decisões de investimento mais criteriosas do que nunca.
Fontes consultadas:
Times Brasil (CNBC): https://timesbrasil.com.br/empresas-e-negocios/agro/agrishow-2026-ia-no-campo-pode-reduzir-em-62-uso-de-defensivos-diz-vice-presidente-da-bosch/
Times Brasil (CNBC): https://timesbrasil.com.br/brasil/ia-robos-e-etanol-agrishow-2026-mostra-como-o-agro-se-reinventa-no-campo/
Itshow: https://itshow.com.br/inteligencia-artificial-agronegocio-nova-fase-2026/